Autor
do Livro - O Paciente
Editora de Cultura
Do
autor...
Foi
doloroso escrever este livro. Em diversos momentos do percurso,
da investigação, questionei se conseguiria manter a prudência
necessária e o distanciamento exigido para poder abordar
exclusivamente o tratamento dispensado ao paciente Tancredo
de Almeida Neves e não contaminá-lo com o do Presidente
da República Tancredo de Almeida Neves. Acho que consegui.
Vamos aos fatos: " Se tivessem esfriado a bacterimia (processo
infeccioso), estabilizado o quadro, ele poderia ter tomado
posse, ter sido operado eletivamente e ter exercido integralmente
o seu mandato. Segundo o seu histórico clínico, era uma
pessoa saudável.
O
diagnóstico equivocado de apendicite supurada é que determinou
a primeira operação desastrada. O que encontraram? Um tumor
maligno. Era primário, não tinha abscesso, não contaminava
a parede abdominal (não infiltrava, não era agressivo),
não tinha metástase, não estava em uma fase de proliferação
(crescimento) agressivo. Não representava risco de morte,
não exigia uma operação de urgência, deveria ter sido retirado
numa cirurgia eletiva. E mais, era completamente ressecável,
estava pediculado, pendurado, facilmente operável. Maligno
não quer dizer mortal, tumor não quer dizer que não seja
operável, tratável, controlável. O tumor não representava
nenhum risco imediato de vida.
" Poderia morrer de doenças próprias
a idade (que ele não tinha), mas não morreria desse tumor.
A partir de certa idade, não se opera mais câncer de próstata,
por exemplo, porque o idoso morre por outra etiologia, mas
não morre mais de câncer. É mórbido, é. Mas é verdade. O
que afirmo, a partir do campo médico, é que 99% do que foi
publicado sobre o paciente Tancredo Neves é incompleto,
falso, ou inverídico.
" O que determinou a morte do Presidente Tancredo Neves:
enterorragia (hemorragia maciça) decorrente de um erro técnico
na sutura da primeira cirurgia - não era um
divertículo, era um leiomiossarcoma. Não se poderia fazer
a ressecção em cunha. É um erro técnico grave. Ele sangrou
desde o primeiro momento e isso explica porque o intestino
não voltou a funcionar (por hipoperfusão tecidual). Determinou
as complicações que o levariam à morte.
" Os médicos brasilienses vetaram o
embarque do presidente eleito em um jatinho que o levaria
na noite do dia 14 de março para São Paulo. Apesar de alegarem
que a cirurgia deveria ser feita no prazo máximo de uma
hora, os médicos levaram três horas para iniciar a tumultuada
operação. Tudo o de grave aconteceu em Brasília. São Paulo
foi apenas o fim da jornada, que se sabia qual era desde
a hemorragia maciça que teve. Quando foi feita a foto no
dia 25 de março, para tranqüilizar o país, já estava sangrando
muito.
" Toda a base documental do livro são os prontuários, o
do Hospital de Base de Brasília e do Instituto do Coração,
em São Paulo. Prontuário é tudo o que foi feito com o paciente
- procedimentos cirúrgicos, técnicas de escolha, pós-operatório,
principais complicações, exames, condutas, etc., da entrada
do paciente (internação) até o óbito ou alta do paciente.
" Os slides da necropsia do Presidente Tancredo Neves, que
reproduzo no livro, são provas contundentes da deiscência
da sutura (técnica de escolha equivocada), do edema por
congestão do intestino delgado, a destruição do pulmão pelo
sangramento não diagnosticado e tratado. O coração intacto,
a infecção controlada. Mas há a parede abdominal necrosada,
pela segunda e danosa cirurgia, desnecessária, equivocada,
outro diagnóstico desastrado.
O livro acaba no dia 12 de abril de 1985. O Presidente é
mantido vivo por aparelhos e drogas. Foi uma decisão inegociável
de minha parte: a partir dessa data ele foi mantido artificialmente
vivo. Era um paciente terminal. Prosseguir descrevendo a
falência múltipla de órgãos para mim era eticamente inaceitável.
Os familiares foram comunicados do óbito do Presidente ao
mesmo tempo em que os brasileiros, no dia 21 de abril de
1985, momentos antes de ser feito o anúncio oficial em comunicado
para todo o país. Mas se ele era um paciente terminal a
partir do dia 12 de abril de 1985, e a partir do dia 16,
totalmente dependente de drogas e aparelhos para se manter
vivo, há algumas questões éticas basais: Henrique Walter
Pinotti poderia ter decidido autonomamente os procedimentos
que serviram apenas para prolongar a agonia e o sofrimento
do paciente, sem informar e consultar à família? Não. Ele
informou a família que estavam esgotados os recursos terapêuticos
a partir do dia 12 de abril? Não. E que a partir daí as
tentativas poderiam ser completamente inúteis para mudar
o curso do processo e que poderiam levar o atendimento prestado
a ultrapassar a linha entre o útil e o fútil. Não. O que
é fútil? É o tratamento que preserva uma vida vegetativa
ou que não pode ser independente de cuidados intensivos.
E qual é o limite entre o útil e fútil? Os atos médicos,
apenas parcialmente previsíveis, tornam difícil demarcar,
com nitidez, durante o tratamento, a linha entre o útil
e o fútil. Essa indefinição de limites penaliza pacientes
criticamente enfermos a tratamentos que apenas acrescentam
sofrimentos a eles. O limite do sofrimento terapêutico é
fixado pelo direito, do paciente, a uma morte digna. Seja
um Presidente da República ou um peão de obra. Prolongar
a vida biológica até quando for possível, custe o que custar,
é inaceitável.
No dia 21 de abril, pela manhã, começa o ritual de preparação
do anúncio da morte do Presidente pela equipe médica. A
mensagem fúnebre chega aos gabinetes em Brasília. E dentro
do InCor monta-se o epílogo dessa tragédia médica. Com milhões
de brasileiros ainda acreditando num milagre, como Risoleta
Neves, a esposa do Presidente. Às 10h23m da noite desse
dia, ela, filhos, netos, milhões de brasileiros assistem
perplexos a um boletim em rede nacional de rádio e televisão
proclamando que o fundador da Nova República estava morto.
Inicialmente, um país inteiro silenciado e paralisado; nas
horas subsequentes, uma explosão pública de dor e pranto.
Tanto o país quanto os familiares desconheciam
que ele era paciente terminal desde o dia 9 de abril, quando
fora entubado em definitivo (perdera a capacidade de respirar
espontaneamente) e começara a receber drogas vasoativas
(para manter o coração funcionando). O quadro seria constatado
pela equipe médica na quarta e última cirurgia, para retirada
de abscessos intraperitoniais, no dia 12 de abril. Segundo
Wilson Pollara, um dos cirurgiões participantes "pudemos
ver que o quadro era irreversível, não havia qualquer chance.
Quando se diz terminal, significa que
o paciente perdeu a capacidade própria de se manter vivo.
No caso do Presidente, a escalada de suas mortes clínicas
(se interrompida a medicação ou desligados os aparelhos,
morreria):
10 de abril: falência pulmonar, total incapacidade de respirar
espontaneamente.
12 de abril: retirada de abscessos intraperitoniais; retirada
de grande parte da parede abdominal necrosada e colocação
de prótese (tela de Marlex); falência renal, instalado um
"shunt" arteriovenoso para hemodiálise; oligúria.
16 de abril: perda total da capacidade de oxigenação de
tecidos, órgãos e aparelhos;
hemodiálise de ultrafiltração por anúria (perda total dos
rins); coagulopatia sistêmica e distúrbios hemorrágicos
variados.
19 de abril: Totalmente dependente de drogas vasoativas.
Diante disso, há algumas questões éticas
basais: Henrique Walter Pinotti poderia ter decidido autonomamente
os procedimentos que serviram para prolongar a agonia e
o sofrimento do paciente? Não. Ele informou à família que
estavam esgotados os recursos terapêuticos a partir do dia
9 de abril? Não. E que, a partir daí, poderiam ser completamente
inúteis as tentativas para mudar o curso do processo? E
que poderiam levar o atendimento a ultrapassar a linha entre
o útil e o fútil? Não. O que é fútil? É o tratamento que
preserva uma vida vegetativa, aquela que não pode ser independente
de cuidados intensivos. E qual é o limite entre o útil e
fútil? Os atos médicos, apenas parcialmente previsíveis
(medicina não é ciência exata), tornam difícil demarcar
essa linha com nitidez. A indefinição de limites condena
pacientes criticamente enfermos a tratamentos que apenas
lhes acrescentam sofrimento. O limite terapêutico é fixado
pelo direito do paciente a uma morte digna. Seja um presidente
da República ou um peão de obra. Os familiares não foram
consultados sobre quando, como e por que desligar os aparelhos.
A decisão foi exclusivamente médica.
Em 19 de abril, chegou ao Brasil o médico Warren Mayron
Zapol, intensivista do Massachusetts General Hospital, da
Escola de Medicina de Harvard, para a última cena médica
da tragédia. Bastaram três perguntas do médico norteamericano
durante a visita à UTI onde o Presidente estava sedado e
entubado:
- Ele urina?
- Não.
- Ele defeca?
- Não.
- Ele respira sem aparelhos?
- Não.
- Então, está morto. Não há mais nada a fazer.
Esse diálogo é citado, repetido, afirmado como veraz e reprodução
exata do que sucedeu por quem estava presente; por quem
diz que presenciou a visita de Zapol; por quem prova que
estava ao lado de Zapol e Pinotti; por quem afirma que conversou
depois da visita com os dois juntos ou separadamente; por
quem diz ter escutado isso do próprio Pinotti. É irrelevante
saber se foram precisamente essas as palavras e as perguntas,
mas é rigorosamente verdadeiro que a vistoria clínica de
Zapol teve esse prognóstico - assegurar ao país que todo
o possível fora feito e prepará-lo para o desligamento dos
aparelhos de suporte que mantinham vivo o Presidente.
Há uma frase atribuída ao Presidente que é repetida por
todos os que tiveram contato com ele dentro do InCor. Começa
pelos médicos que o atenderam na Medicina Nuclear e na Hemodinâmica
tão logo chegou. Todos afirmam tê-la escutado diretamente
dele. E a última pessoa que teria ouvido essa frase foi
seu neto, Aécio Neves da Cunha, antes de o Presidente ser
sedado definitivamente e iniciar o trajeto final: "Eu não
merecia isso".
A Síndrome Tancredo Neves nunca mais abandonou os que o
atenderam. Explicaram, explicam, explicarão o resto de suas
vidas o que fizeram, por que o fizeram, o que não fizeram.
Todas as explicações são razoáveis, todas as ações foram
as melhores, todos os resultados foram desastrosos. Ele,
que se submetera disciplinadamente a partir da sua internação
a todos os ditames da acuidade diagnóstica e à excelência
profissional dos que o atendiam, vai a óbito num quadro
catastrófico decorrente de diagnósticos equivocados, procedimentos
inadequados, avaliações heterodoxas, quebra de condutas
e rotinas em cascata. Eram todos profissionais com competência
comprovada em suas especialidades.
*
Sobre o autor
Luís
Mir é jornalista profissional, historiador, pesquisador
do Centro de Desenvolvimento de Educação Médica da Disciplina
de Medicina Geral da FMUSP. Autor dos livros: Partido de
Deus – Fé, Poder e Política (2007); Guerra Civil – Estado
e Trauma (2005); Genômica (2004) – 1º lugar no Prêmio Jabuti
2005 na categoria Ciências Naturais e Ciências da Saúde;
Guerra Sem Fim (1998); A Revolução Impossível: a esquerda
e a luta armada no Brasil (1994). Especialista em atendimento
médico ao trauma é professor visitante da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo.
Há um consenso médico
sobre este caso: o paciente matou o Presidente da República
e o Presidente da República matou o paciente.
Pobre país, pobre paciente, pobres médicos, pobres de todos
nós...
Já
nas livrarias
FICHA
TÉCNICA
Título: O Paciente
Subtítulo: O caso Tancredo Neves
Autor: Luis Mir
Editora: Editora de Cultura
Nº de páginas: 384, brochura 17 x 24 cm
Preço: R$ 49,00
ISBN:978-85-293-0140-2
Mais informações:
Editora de Cultura: 11 2894.5100
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