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O PACIENTE

O caso Tancredo Neves

 

Luís Mir *

Autor do Livro - O Paciente
Editora de Cultura

Do autor...

Foi doloroso escrever este livro. Em diversos momentos do percurso, da investigação, questionei se conseguiria manter a prudência necessária e o distanciamento exigido para poder abordar exclusivamente o tratamento dispensado ao paciente Tancredo de Almeida Neves e não contaminá-lo com o do Presidente da República Tancredo de Almeida Neves. Acho que consegui. Vamos aos fatos: " Se tivessem esfriado a bacterimia (processo infeccioso), estabilizado o quadro, ele poderia ter tomado posse, ter sido operado eletivamente e ter exercido integralmente o seu mandato. Segundo o seu histórico clínico, era uma pessoa saudável.

O diagnóstico equivocado de apendicite supurada é que determinou a primeira operação desastrada. O que encontraram? Um tumor maligno. Era primário, não tinha abscesso, não contaminava a parede abdominal (não infiltrava, não era agressivo), não tinha metástase, não estava em uma fase de proliferação (crescimento) agressivo. Não representava risco de morte, não exigia uma operação de urgência, deveria ter sido retirado numa cirurgia eletiva. E mais, era completamente ressecável, estava pediculado, pendurado, facilmente operável. Maligno não quer dizer mortal, tumor não quer dizer que não seja operável, tratável, controlável. O tumor não representava nenhum risco imediato de vida.

" Poderia morrer de doenças próprias a idade (que ele não tinha), mas não morreria desse tumor. A partir de certa idade, não se opera mais câncer de próstata, por exemplo, porque o idoso morre por outra etiologia, mas não morre mais de câncer. É mórbido, é. Mas é verdade. O que afirmo, a partir do campo médico, é que 99% do que foi publicado sobre o paciente Tancredo Neves é incompleto, falso, ou inverídico.
" O que determinou a morte do Presidente Tancredo Neves: enterorragia (hemorragia maciça) decorrente de um erro técnico na sutura da primeira cirurgia - não era um
divertículo, era um leiomiossarcoma. Não se poderia fazer a ressecção em cunha. É um erro técnico grave. Ele sangrou desde o primeiro momento e isso explica porque o intestino não voltou a funcionar (por hipoperfusão tecidual). Determinou as complicações que o levariam à morte.

" Os médicos brasilienses vetaram o embarque do presidente eleito em um jatinho que o levaria na noite do dia 14 de março para São Paulo. Apesar de alegarem que a cirurgia deveria ser feita no prazo máximo de uma hora, os médicos levaram três horas para iniciar a tumultuada operação. Tudo o de grave aconteceu em Brasília. São Paulo foi apenas o fim da jornada, que se sabia qual era desde a hemorragia maciça que teve. Quando foi feita a foto no dia 25 de março, para tranqüilizar o país, já estava sangrando muito.

" Toda a base documental do livro são os prontuários, o do Hospital de Base de Brasília e do Instituto do Coração, em São Paulo. Prontuário é tudo o que foi feito com o paciente - procedimentos cirúrgicos, técnicas de escolha, pós-operatório, principais complicações, exames, condutas, etc., da entrada do paciente (internação) até o óbito ou alta do paciente.

" Os slides da necropsia do Presidente Tancredo Neves, que reproduzo no livro, são provas contundentes da deiscência da sutura (técnica de escolha equivocada), do edema por congestão do intestino delgado, a destruição do pulmão pelo sangramento não diagnosticado e tratado. O coração intacto, a infecção controlada. Mas há a parede abdominal necrosada, pela segunda e danosa cirurgia, desnecessária, equivocada, outro diagnóstico desastrado.

O livro acaba no dia 12 de abril de 1985. O Presidente é mantido vivo por aparelhos e drogas. Foi uma decisão inegociável de minha parte: a partir dessa data ele foi mantido artificialmente vivo. Era um paciente terminal. Prosseguir descrevendo a falência múltipla de órgãos para mim era eticamente inaceitável.

Os familiares foram comunicados do óbito do Presidente ao mesmo tempo em que os brasileiros, no dia 21 de abril de 1985, momentos antes de ser feito o anúncio oficial em comunicado para todo o país. Mas se ele era um paciente terminal a partir do dia 12 de abril de 1985, e a partir do dia 16, totalmente dependente de drogas e aparelhos para se manter vivo, há algumas questões éticas basais: Henrique Walter Pinotti poderia ter decidido autonomamente os procedimentos que serviram apenas para prolongar a agonia e o sofrimento do paciente, sem informar e consultar à família? Não. Ele informou a família que estavam esgotados os recursos terapêuticos a partir do dia 12 de abril? Não. E que a partir daí as tentativas poderiam ser completamente inúteis para mudar o curso do processo e que poderiam levar o atendimento prestado a ultrapassar a linha entre o útil e o fútil. Não. O que é fútil? É o tratamento que preserva uma vida vegetativa ou que não pode ser independente de cuidados intensivos. E qual é o limite entre o útil e fútil? Os atos médicos, apenas parcialmente previsíveis, tornam difícil demarcar, com nitidez, durante o tratamento, a linha entre o útil e o fútil. Essa indefinição de limites penaliza pacientes criticamente enfermos a tratamentos que apenas acrescentam sofrimentos a eles. O limite do sofrimento terapêutico é fixado pelo direito, do paciente, a uma morte digna. Seja um Presidente da República ou um peão de obra. Prolongar a vida biológica até quando for possível, custe o que custar, é inaceitável.

No dia 21 de abril, pela manhã, começa o ritual de preparação do anúncio da morte do Presidente pela equipe médica. A mensagem fúnebre chega aos gabinetes em Brasília. E dentro do InCor monta-se o epílogo dessa tragédia médica. Com milhões de brasileiros ainda acreditando num milagre, como Risoleta Neves, a esposa do Presidente. Às 10h23m da noite desse dia, ela, filhos, netos, milhões de brasileiros assistem perplexos a um boletim em rede nacional de rádio e televisão proclamando que o fundador da Nova República estava morto. Inicialmente, um país inteiro silenciado e paralisado; nas horas subsequentes, uma explosão pública de dor e pranto.

Tanto o país quanto os familiares desconheciam que ele era paciente terminal desde o dia 9 de abril, quando fora entubado em definitivo (perdera a capacidade de respirar espontaneamente) e começara a receber drogas vasoativas (para manter o coração funcionando). O quadro seria constatado pela equipe médica na quarta e última cirurgia, para retirada de abscessos intraperitoniais, no dia 12 de abril. Segundo Wilson Pollara, um dos cirurgiões participantes "pudemos ver que o quadro era irreversível, não havia qualquer chance.

Quando se diz terminal, significa que o paciente perdeu a capacidade própria de se manter vivo. No caso do Presidente, a escalada de suas mortes clínicas (se interrompida a medicação ou desligados os aparelhos, morreria):

10 de abril: falência pulmonar, total incapacidade de respirar espontaneamente.
12 de abril: retirada de abscessos intraperitoniais; retirada de grande parte da parede abdominal necrosada e colocação de prótese (tela de Marlex); falência renal, instalado um "shunt" arteriovenoso para hemodiálise; oligúria.
16 de abril: perda total da capacidade de oxigenação de tecidos, órgãos e aparelhos;
hemodiálise de ultrafiltração por anúria (perda total dos rins); coagulopatia sistêmica e distúrbios hemorrágicos variados.
19 de abril: Totalmente dependente de drogas vasoativas.

Diante disso, há algumas questões éticas basais: Henrique Walter Pinotti poderia ter decidido autonomamente os procedimentos que serviram para prolongar a agonia e o sofrimento do paciente? Não. Ele informou à família que estavam esgotados os recursos terapêuticos a partir do dia 9 de abril? Não. E que, a partir daí, poderiam ser completamente inúteis as tentativas para mudar o curso do processo? E que poderiam levar o atendimento a ultrapassar a linha entre o útil e o fútil? Não. O que é fútil? É o tratamento que preserva uma vida vegetativa, aquela que não pode ser independente de cuidados intensivos. E qual é o limite entre o útil e fútil? Os atos médicos, apenas parcialmente previsíveis (medicina não é ciência exata), tornam difícil demarcar essa linha com nitidez. A indefinição de limites condena pacientes criticamente enfermos a tratamentos que apenas lhes acrescentam sofrimento. O limite terapêutico é fixado pelo direito do paciente a uma morte digna. Seja um presidente da República ou um peão de obra. Os familiares não foram consultados sobre quando, como e por que desligar os aparelhos. A decisão foi exclusivamente médica.

Em 19 de abril, chegou ao Brasil o médico Warren Mayron Zapol, intensivista do Massachusetts General Hospital, da Escola de Medicina de Harvard, para a última cena médica da tragédia. Bastaram três perguntas do médico norteamericano durante a visita à UTI onde o Presidente estava sedado e entubado:

- Ele urina?
- Não.
- Ele defeca?
- Não.
- Ele respira sem aparelhos?
- Não.
- Então, está morto. Não há mais nada a fazer.

Esse diálogo é citado, repetido, afirmado como veraz e reprodução exata do que sucedeu por quem estava presente; por quem diz que presenciou a visita de Zapol; por quem prova que estava ao lado de Zapol e Pinotti; por quem afirma que conversou depois da visita com os dois juntos ou separadamente; por quem diz ter escutado isso do próprio Pinotti. É irrelevante saber se foram precisamente essas as palavras e as perguntas, mas é rigorosamente verdadeiro que a vistoria clínica de Zapol teve esse prognóstico - assegurar ao país que todo o possível fora feito e prepará-lo para o desligamento dos aparelhos de suporte que mantinham vivo o Presidente.

Há uma frase atribuída ao Presidente que é repetida por todos os que tiveram contato com ele dentro do InCor. Começa pelos médicos que o atenderam na Medicina Nuclear e na Hemodinâmica tão logo chegou. Todos afirmam tê-la escutado diretamente dele. E a última pessoa que teria ouvido essa frase foi seu neto, Aécio Neves da Cunha, antes de o Presidente ser sedado definitivamente e iniciar o trajeto final: "Eu não merecia isso".

A Síndrome Tancredo Neves nunca mais abandonou os que o atenderam. Explicaram, explicam, explicarão o resto de suas vidas o que fizeram, por que o fizeram, o que não fizeram. Todas as explicações são razoáveis, todas as ações foram as melhores, todos os resultados foram desastrosos. Ele, que se submetera disciplinadamente a partir da sua internação a todos os ditames da acuidade diagnóstica e à excelência profissional dos que o atendiam, vai a óbito num quadro catastrófico decorrente de diagnósticos equivocados, procedimentos inadequados, avaliações heterodoxas, quebra de condutas e rotinas em cascata. Eram todos profissionais com competência comprovada em suas especialidades.

* Sobre o autor

Luís Mir é jornalista profissional, historiador, pesquisador do Centro de Desenvolvimento de Educação Médica da Disciplina de Medicina Geral da FMUSP. Autor dos livros: Partido de Deus – Fé, Poder e Política (2007); Guerra Civil – Estado e Trauma (2005); Genômica (2004) – 1º lugar no Prêmio Jabuti 2005 na categoria Ciências Naturais e Ciências da Saúde; Guerra Sem Fim (1998); A Revolução Impossível: a esquerda e a luta armada no Brasil (1994). Especialista em atendimento médico ao trauma é professor visitante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Há um consenso médico sobre este caso: o paciente matou o Presidente da República e o Presidente da República matou o paciente.
Pobre país, pobre paciente, pobres médicos, pobres de todos nós...

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FICHA TÉCNICA
Título: O Paciente
Subtítulo: O caso Tancredo Neves
Autor: Luis Mir
Editora: Editora de Cultura
Nº de páginas: 384, brochura 17 x 24 cm
Preço: R$ 49,00
ISBN:978-85-293-0140-2


Mais informações:
Editora de Cultura: 11 2894.5100
imprensa@editoradecultura.com.br

 

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